pequenos leões, Grandes Guerreiros da Mata Atlântica

O nome Fernando de Noronha faz parte do sonho de muitos brasileiros, tanto dos que nunca pisaram no arquipélago quanto dos que já visitaram. Está associado ao “paraíso” por sua beleza cênica, com praias virgens e localização privilegiada. Entretanto, a importância do local vai muito além do que se imagina quando o nome é citado.

Praia do Leão em Fernando de Noronha © Bruno Maia

Praia do Leão em Fernando de Noronha © Bruno Maia

Parte do seu território foi declarado Parque Nacional Marinho em 88 visando à conservação daquela ilha que, no passado foi, enquanto presídio, desflorestada para evitar esconderijos e fugas. A necessidade de proteger uma região surge a partir do momento em que se conhece suas riquezas e, em Noronha, diversas pesquisas e projetos de conservação são realizados devido a sua importância no cenário ecológico. O Projeto Tamar, por exemplo, vem atuando em Noronha desde a década de 80 e se tornou referência nacional em conservação. Outro projeto, o Golfinho Rotador, também há muitos anos estuda o comportamento destes cetáceos na região.

Biólogo do TAMAR anotando dados da tartaruga verde (Chelonia mydas)

Biólogo do TAMAR anotando dados da tartaruga verde (Chelonia mydas) na Baía do Sueste © Bruno Maia

Seus trabalhos não se limitam às espécies estudadas. Eles vão além, pois sabem que a conservação depende de todos os seres vivos, de toda a rede, toda a cadeia. Não adianta proteger as tartarugas se os tubarões, os corais, as algas não estiverem em equilíbrio, nem se a comunidade não estiver consciente, muito menos se os visitantes não respeitarem o local.

Placa da Palestra no Centro de Visitantes ICMBio/TAMAR © Bruno Maia

Programação de Palestras no Centro de Visitantes ICMBio/TAMAR © Bruno Maia

Por esses motivos, a educação ambiental é amplamente difundida em Fernando de Noronha. São poucos locais no país em que as pessoas que visitam um destino se submetem a uma hora de palestra sobre questões ambientais. Em Noronha, o Centro de Visitantes ICMBio/TAMAR reúne cerca de cem pessoas que recebem informações sobre a natureza, aspectos da fauna, flora, não só do arquipélago, mas também sobre outros pontos do país como Atol das Rocas, Rochedos São Pedro e São Paulo, além de Trindade. As palestras já fazem  parte do “ritual da visita” há muitos anos e os viajantes voltam para casa com uma  visão mais aprofundada da natureza. Voltam mais conscientes do “todo”, não só com conhecimentos sobre as tartarugas, mas também com relação aos impactos do lixo nos oceanos, nos mares, no estômago da tartaruga, na cadeia alimentar, na vida.

Não só pelas palestras, mas também pelas informações recebidas através dos biólogos no Mirante dos Golfinhos, durante uma manhã ao observar os golfinhos rotadores, ou na Baía do Sueste, observando o trabalho do TAMAR, ou até a noite, na Praia do Leão, vendo as tartarugas desovarem na mesma praia em que nasceram. Para muitos, que moram em grandes cidades, trata-se do primeiro contato com animais em seu habitat natural, gerando maior sensibilidade em relação às causas ambientais e, consequentemente, mudança de comportamento.

Golfinhos Rotadores (Stenella longirostris) na Baía dos Golfinhos © Bruno Maia

Golfinhos Rotadores (Stenella longirostris) visitando a Baía dos Golfinhos © Bruno Maia

Arquipélago de origem vulcânica, Parque Nacional, a centenas de quilômetros da costa, com grande riqueza de fauna marinha, base para reprodução de aves marinhas, alvo de diversas pesquisas científicas e com título de Patrimônio Natural da Humanidade.  Poderia estar descrevendo Galápagos, por essas e diversas outras semelhanças, porém as características pertencem  a Fernando de Noronha. Galápagos se tornou conhecido mundialmente por servir de base para os estudos de Charles Darwin sobre a evolução das espécies.

Atobá Marrom (Sula leucogaster) em Noronha e Atobá de patas azuis (Sula nebouxi) em Galápagos © Bruno Maia

Atobá Marrom (Sula leucogaster) em Noronha e Atobá de patas azuis (Sula nebouxi) em Galápagos © Bruno Maia

E Noronha, apenas o “paraíso” de belas praias e paisagens? Não, o Mabuia* do Atlântico. Único, com história evolutiva única e importância inegável para a riqueza da diversidade biológica da Terra.

Mabuia visitando as árvores em Noronha © Bruno Maia

Mabuia (Euprepis atlanticus) visitando árvores em Fernando de Noronha © Bruno Maia

* Mabuia (Euprepis atlanticus) – lagarto endêmico de Fernando de Noronha. Seus ancestrais são da África e não da América. Costuma sugar o néctar das flores do mulungu como se fosse um beija-flor, um caso raro de lagarto que, não só visita, como poliniza as flores. Animal de comportamento curioso, aproxima-se das pessoas e frequentemente é encontrado em mochilas de visitantes desavisados. O primeiro registro histórico do mabuia encontra-se na Carta do Descobrimento, portanto, a colonização de Noronha pelo mabuia, seja ela natural (através de correntes marinhas) ou antrópica (introdução pelo Homem) se deu antes do descobrimento “oficial” do arquipélago em 1503.

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Mapa de Fernando de Noronha com imagens georreferenciadas © Bruno Maia

Mapa de Fernando de Noronha com imagens georreferenciadas © Bruno Maia

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4 Respostas to “Fernando de Noronha, Mabuia do Atlântico”

  1. ricardo matheus disse:

    Excelente matéria. Noronha, como diz o autor, mesmo para os que já a conhecem, permanece um sonho.
    Já tive a felicidade de conhecê-la. Espero voltar e encontrá-la sem mudanças. Sem o “toque do homem”.
    É um local em que temos a sensação que a natureza quer nos mostrar como a vida é sinônimo de harmonia, de equilíbrio.
    Temos apenas que olhar e aprender. E ainda temos muito que aprender.

    Parabéns pela matéria

    Ricardo

  2. Andrés Carrero disse:

    Muito legal e poderoso no articulo e nas fotos de Bruno! Noronha represante na esperanza e no modelo ecologico para tudo Brasil, para America Latina e no Planeta Terra. Da muito inspiracao saber que nosso mundo tem um lugar com tanta beleza e tam puro sem contaminacao do mano de homem. Eu asho que esta bom que nao e tam conhecido como Galapagos pois asi se mantem mais virgem e secreto. Muito obrigado pelas fotos e no articulo!

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